Por volta dos anos 50, um movimento religioso de origem popular começou a varrer o Brasil, preparando o terreno para a explosão que faz do país hoje uma das três maiores potências evangélicas do mundo: o avivamento pentecostal. Muito mais do que revolucionar as igrejas evangélicas da época, o fenômeno trouxe de volta uma série de manifestações espirituais que muitos julgavam enterradas nas páginas do Novo Testamento. Curas divinas, profecias, novas línguas e uma série de sinais sobrenaturais começaram a fazer parte dos cultos e das grandes concentrações de massa que pipocavam em vários pontos do país. Entre os grupos evangélicos que incendiavam as platéias com pregações entusiasmadas, havia um que se destacava pela sua origem genuinamente nacional, ao contrário das organizações estrangeiras que aqui vieram pregar a Palavra de Deus naquela época. Era a comunidade liderada pelo pastor Manoel de Mello, um pernambucano radicado em São Paulo que sonhava levar o Evangelho aos quatro cantos do país. O nome da obra não poderia ser mais sugestivo: O Brasil Para Cristo.
De 1955 - ano de sua fundação - para cá, a obra fez jus ao nome.Plantou igrejas, conquistou seguidores e influenciou a sociedade. Chegou a alcançar a marca de 2 milhões de adeptos, no apogeu do movimento, nas décadas de 50 e 60. Ainda hoje, estima-se que possua cerca de 600 mil fiéis e 1,5 mil templos (ver quadro), marcas que a colocam entre as maiores denominações evangélicas do país. Mas este encolhimento não representa fracasso espiritual - pelo contrário, significou o desdobramento em novos trabalhos. Os exemplos mais expressivos são os dos missionários Davi Miranda e Doriel de Oliveira, ex-membros de O Brasil Para Cristo que fundaram, respectivamente, dois outros gigantes pentecostais: a Deus é Amor e a Casa da Bênção.
Perseguição - O grupo de pioneiros, liderado por Manoel de Mello, resolveu começar um grande movimento de evangelização no país. Um dos carros-chefes da iniciativa foi a criação do programa A voz do Brasil para Cristo, levado ao ar pela Rádio Piratininga de São Paulo em janeiro de 1956, uma época em que os evangélicos apenas engatinhavam na área da comunicação. O programa fez sucesso, o que atraiu muita gente para a primeira tenda, erguida no início daquele ano.
Como o crescimento numérico eventualmente pode significar problemas, a Brasil Para Cristo também teve seu quinhão de perseguição. O próprio pastor Manoel, se vivo estivesse - faleceu em 1990 -, poderia lembrar de casos e mais casos. Como certa vez em que foi intimado a comparecer perante a 8ª Vara Criminal de São Paulo, acusado de charlatanismo, curandeirismo e exploração dos incautos. Escapou da condenação. O promotor julgou que ele não invadiu área penal, entendendo que "só ficou na faixa da religião que professa e da qual é ministro". Mas não pôde evitar atos de vandalismo praticados contra os locais de culto da igreja. "Tivemos tendas queimadas, galpões destruídos, bíblias incendiadas e até programas de rádio tirados do ar bruscamente", conta o advogado Boaz de Mello, 39 anos, evangelista da igreja e filho do fundador.
Diante da situação, os líderes do movimento decidiram construir um "tabernáculo" de madeira na Avenida Álvaro Ramos, em terreno cedido pelo então prefeito de São Paulo, Ademar de Barros. A obra terminou em 1958, e o espaço logo ficou pequeno para a multidão que freqüentava os cultos. O "tabernáculo", contudo, não durou muito. No mesmo ano, foi depredado, num episódio obscuro que parte da igreja atribuiu a servidores mandados pelo próprio prefeito, que teria sido pressionado por grupos insatisfeitos com a expansão daquela obra.
Um grande pavilhão na Rua Tuiti, alugado em 1960, foi a parada seguinte de O Brasil Para Cristo na sua peregrinação. Ao mesmo tempo, vários lugares foram usados para concentrações: o Teatro de Alumínio, o Cine Piratininga, a Praça da Sé e até o Estádio do Pacaembu. A falta de espaço e a instabilidade provocada pelas mudanças constantes levaram a direção do ministério a concluir que só num grande templo próprio a igreja teria condições de dar prosseguimento ao trabalho de evangelização.
A decisão de construir a casa própria nasceu de modo bem pentecostal: através de uma profecia. Certo dia, Manoel de Mello e o pastor Levi Tavares saíram procurando um lugar e encontrou um grande curtume próximo ao Sesc Pompéia. Os proprietários, uma família francesa, nem queria conversa, mas como a palavra de Deus não volta vazia para aqueles que crêem logo a propriedade de 11 mil metros quadrados passava para as mãos da igreja. Ali, em 1962, foi lançada a pedra fundamental do templo que só seria concluído 18 anos depois. A espera valeu a pena. O templo sede da igreja O Brasil Para Cristo comporta 10 mil pessoas sentadas, além de 2,5 mil na parte externa. É um complexo com salas de aula, escritórios, estacionamento, quadras esportivas e diversas instalações. Atualmente, o grande templo é liderado pelo pastor Paulo Lutero de Mello, o outro filho do fundador do ministério. "Começamos do nada, mas conseguimos abalar o Brasil com mensagens poderosas de salvação, curas e milagres", resume o pastor Orlando Silva, presidente do Conselho Nacional de O Brasil Para Cristo. Na opinião do líder, a importância do movimento foi trazer de volta verdades que os crentes da época não conseguiam enxergar. Mas a atuação do ministério não foi marcante apenas naqueles primórdios do pentecostalismo brasileiro. "Ao longo desses 41 anos, a obra se transformou numa imensa rede, conectada em todo o país com o objetivo de libertar almas do pecado e confessar o senhorio de Jesus Cristo", completa Orlando. Revista Vinde

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